Há quase três décadas, o final de Neon Genesis Evangelion confunde, frustra e fascina gerações de fãs. Seja na série original de 1995 ou no filme The End of Evangelion, a conclusão da obra de Hideaki Anno foge do espetáculo visual de robôs gigantes para mergulhar em um ensaio psicanalítico sobre a existência humana.
Mas, afinal, o que aconteceu? Shinji salvou o mundo ou o condenou? E por que aquela cena final com Asuka é tão perturbadora?
A Instrumentalidade Humana: O Fim da Individualidade

Para entender o final, precisamos compreender o Projeto de Instrumentalidade Humana. O objetivo da SEELE (e, de forma diferente, de Gendo Ikari) era fundir todas as consciências humanas em uma única entidade coletiva através do LCL (o "sopa primordial").
A lógica era simples, porém cruel: a dor humana vem da separação. Nós sofremos porque não conseguimos entender completamente o outro, criando o que a série chama de Campos AT (as barreiras da alma). Sem barreiras, não haveria solidão, rejeição ou dor. No Terceiro Impacto, a humanidade perde sua forma física e se torna um oceano de consciência onde todos são um só.
A Escolha de Shinji: A Dor de Ser Indivíduo

Nos episódios 25 e 26 da TV, essa jornada é interna. Em The End of Evangelion, ela é visceral. No clímax, Shinji atinge o estado de "deus" dentro do Eva-01 e tem o poder de decidir o destino da espécie.
Ele inicialmente aceita a Instrumentalidade porque está devastado pelo ódio próprio. No entanto, ele percebe que em um mundo onde todos são um, nada é real. Se não existe dor, também não existe alegria. Se não existe o "outro" para nos rejeitar, também não existe o "eu" para ser amado.
Shinji rejeita a Instrumentalidade. Ele escolhe um mundo onde as pessoas têm formas físicas e mentes separadas, aceitando que viver é, inerentemente, correr o risco de ser ferido.
A Cena da Praia: "One More Final"

A cena final nos transporta para uma praia desolada, sob um céu vermelho e os restos mortais da gigante Rei Ayanami. Shinji e Asuka são os únicos presentes (os primeiros a retornar do oceano de LCL por possuírem uma vontade própria forte).
O que acontece a seguir é o que gera mais debates: Shinji começa a estrangular Asuka.
Por que o estrangulamento?
- Confirmação da Realidade: No oceano de LCL, os pensamentos se fundiam. Ao tentar matar Asuka, Shinji está testando se está de volta ao mundo real. A dor e a reação do outro são as únicas provas de que ele não está mais em um sonho.
- O Dilema do Ouriço: Esta é a conclusão da metáfora central da série. Shinji quer se aproximar das pessoas, mas as machuca (e é machucado) quando o faz. O ato de estrangular é o ápice de sua incapacidade de lidar com a rejeição.
A Reação de Asuka: "Kimochi Warui"
Em vez de lutar ou gritar, Asuka simplesmente acaricia o rosto de Shinji com ternura. Este gesto de carinho inesperado é o que faz Shinji parar e desabar em lágrimas. Ela demonstra compaixão pelo seu agressor, algo que ele nunca soube processar.
Asuka termina o filme com a frase: "Kimochi warui" (traduzida comumente como "Que nojo", "Me sinto mal" ou "Que patético").
O Significado Real
A última cena não é sobre esperança messiânica ou um final feliz tradicional. É sobre a crua realidade humana. Hideaki Anno, que passava por uma depressão profunda na época, quis dizer que o mundo real é difícil, as pessoas são complicadas e as relações podem ser "nojentas" ou dolorosas.
No entanto, a mensagem final é de possibilidade. O fato de Shinji ter parado de estrangulá-la e Asuka ter tido um gesto de carinho mostra que, mesmo em um mundo quebrado, existe espaço para a empatia e para o recomeço.
Evangelion termina nos dizendo que o paraíso não é um lugar onde todos são iguais e felizes por obrigação, mas sim o lugar onde temos a liberdade de tentar ser nós mesmos, por mais difícil que isso seja.